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MULHERES QUE BEBEM DEMAIS


FLÁVIA YURI OSHIMA, NATHALIA BIANCO E JULIA KORTE, COM ALINE IMERCIO
Revista ÉPOCA ON LINE - Março de 2015


A capixaba Luciana (foto acima) é uma morena bonita, de sorriso largo e corpo escultural. Fala de forma calma e pausada, com um leve sotaque de sua terra natal. Aos 42 anos, ela já foi casada duas vezes e morou em quatro países além do Brasil: Estados Unidos, Espanha, México e China. Acompanhava o marido, um executivo alemão, em seus postos de trabalho. Hoje está separada e vive no Espírito Santo. Ela é mãe de um rapaz de 19 anos, aluno de engenharia, e de um garoto “muito esperto” de 7 anos. O mais velho mora sozinho. O menor está com o pai. Quando conversamos, ela não via os filhos fazia 33 dias. “Você está sem beber, né? Por isso demorou a ligar”, disse o caçula ao atender o telefone, na única vez em que falou com a mãe nesse período.
    

Luciana – esse não é seu nome verdadeiro, mas as outras informações a seu respeito são exatas – está internada, pela terceira vez em dois anos, numa clínica de recuperação para dependentes químicos no Rio de Janeiro. “Na primeira vez que vim para cá, sentia tremores, meu coração disparava, tinha lapsos de memória e anemia”, diz Luciana. “Quero me fortalecer para voltar às aulas.” Luciana vai para o 5º semestre de psicologia. Diz que a vontade que sente de ir à faculdade é uma conquista. Durante 20 anos, ela viveu afundada na bebida. “Bebia por tédio ou bebia para não comer, por medo de engordar. Depois, bebia porque não conseguia ficar sem”, diz. Na clínica em que Luciana está internada, há fila de espera para a ala feminina. “Em pouco mais de dez anos, aumentamos o número de leitos para as mulheres de seis quartos para 26 e ainda não conseguimos atender à procura”, diz o psiquiatra Jorge Jaber, dono da clínica. “O número de mulheres triplicou, enquanto o de homens aumentou em 50% nesse período.”

Essa não é a única constatação assustadora que emerge do encontro entre as mulheres e a bebida. Estudos recentes realizados dentro e fora do Brasil sugerem que está em formação uma tempestade perfeita, capaz de elevar dramaticamente a incidência de alcoolismo feminino. O primeiro dado alarmante revelado pelas pesquisas é que as mulheres estão bebendo mais do que jamais beberam, e que o problema se agrava ano a ano. As estatísticas também mostram que o hábito de se embriagar está começando mais cedo do que antes. Na adolescência, as meninas já bebem mais do que os meninos, algo que não se percebia no passado. Não se trata de um problema de pessoas mal informadas ou pouco instruídas. Os números são claros ao mostrar que o consumo excessivo de bebida entre as mulheres se concentra no topo da pirâmide de renda, nas famílias de classe média alta. Outra péssima notícia é que a sociedade ainda não sabe lidar com esse drama. Assim como a causa do alcoolismo entre as mulheres difere da causa entre os homens, o tratamento da doença também tem de ser outro, mas pouca gente entende isso.

Luana, de 17 anos – seu nome foi trocado, mas sua história é verdadeira –, começou a beber em casa, com os pais.  Há pouco mais de um ano, passou a beber em festas e na casa de amigos, com frequência. “Já dei três PTs (perda total, gíria para passar mal e desmaiar)”, diz ela. “É normal que isso ocorra até a gente conhecer os próprios limites.” Na verdade, longe de ser normal, esse comportamento é preocupante. Inúmeras pesquisas mostram que, quanto mais cedo se começa a beber, maiores são as chances de desenvolver dependência na vida adulta. A pesquisa mais recente, realizada na Austrália, acompanhou 2 mil jovens e concluiu que aqueles que começam a beber cedo (entre os 12 e os 13 anos) têm três vezes mais chances de se tornar dependentes do álcool depois dos 18. Com isso em mente, a situação das adolescentes brasileiras torna-se ainda mais preocupante. Segundo o Levantamento nacional de álcool e drogas, o Lenad, pela primeira vez na história do Brasil há uma faixa etária em que as mulheres bebem mais que os homens. O percentual de garotas entre 14 e 17 anos que consomem álcool pelo menos uma vez por semana, todas as semanas, cresceu de 69% para 74%, em seis anos. O de homens permaneceu estável em 69%. Os dois percentuais são altíssimos. Os médicos não sabem exatamente por que isso ocorre, mas lembram que as meninas nessa fase tendem a ser mais maduras que os meninos. Elas parecem mais velhas, andam com pessoas mais velhas e frequentam ambientes em que o consumo do álcool é liberado.
 

Os pais acreditam proteger crianças e adolescentes introduzindo a bebida no ambiente controlado da casa, mas isso parece ser um erro. “O que eles fazem é autorizar que o adolescente comece a beber cada vez mais cedo”, diz Ana Cecília Marques, psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Outras distorções ocorrem dentro das famílias. Enquanto os pais se preocupam em educar os garotos para tomarem cuidado com álcool, violência e trânsito, com as meninas as prioridades são outras. Sexo e segurança na rua são os assuntos mais abordados. O álcool ainda não é uma das preocupações, embora devesse ser. Um teste feito pela Unifesp pediu a meninos e meninas entre 12 e 15 anos para comprar bebida alcoólica em bares do interior de São Paulo. Os garotos não conseguiram, mas a maioria das meninas conseguiu. Aparentemente, elas despertam menos suspeita de abusar de álcool que os garotos – embora os números mostrem que isso não é mais verdade. Diz Ana Cecília, da Unifesp: “O comportamento das adolescentes brasileiras em relação ao álcool sugere que um número ainda maior de mulheres virá a ter problemas com álcool nos próximos anos”.

O crescimento do consumo de bebidas entre as mulheres é um fenômeno mundial subterrâneo. Ele chama a atenção de especialistas, mas não provoca alarme ou mobilização na sociedade. Talvez porque os homens ainda bebam muito mais que as mulheres e façam mais barulho. Mas o número de mulheres que bebem aumentou dramaticamente nas últimas décadas. Há 30 anos, havia 20 homens que bebiam demais para cada mulher que fazia o mesmo. No fim da década de 1990, a proporção mudou para 14 homens para cada mulher. No ano passado, em seu estudo mais recente sobre o assunto, de abrangência mundial, a Organização Mundial de Saúde (OMS) constatou que, de cada cinco pessoas que consomem bebidas alcoólicas de forma pesada, uma é mulher. A evolução é assustadora – e não é a única que aponta na mesma direção.

As mulheres engordam todas as estatísticas relacionadas ao consumo de álcool. Em 2005, o álcool foi a causa direta de 1,1% das mortes de mulheres em todo o mundo. No último relatório da OMS esse percentual subiu para 4,4%. Entre os homens, as mortes causadas pelo álcool passaram de 6,2% para 7,6%. O aumento foi menor. As pesquisas brasileiras confirmam as tendências globais. Enquanto o percentual de jovens entre 14 e 17 anos que bebem mais de cinco doses num único dia caiu (foi de 31% em 2006 para 24% em 2012), o de mulheres aumentou de 11% para 20%. Entre os adultos, o número de homens alcoólatras caiu de 13,60% para 10,48%, o de mulheres não só não diminuiu como apresentou um leve aumento: passou de 3,38% para 3,63%. Enquanto eles freiam, elas aceleram.
 

Essas estatísticas não significam necessariamente dependência do álcool. Mas algumas mulheres se tornam alcoólatras – e quem é alcoólatra precisa de ajuda. Livrar-se da dependência química raramente é apenas um ato de vontade. O problema é que são poucos os que pedem socorro. Apenas 18% dos homens buscam auxílio voluntariamente. Entre as mulheres, a proporção é ainda menor: somente 5% pedem ajuda espontaneamente. A principal razão é que levam muito tempo para se reconhecer como alcoólatras. A proporção dos que chegam ao fim de um tratamento de dependência é de cinco homens para uma mulher – e não são apenas os desafios inerentes a largar o vício que levam as mulheres a desistir.
 

A alcoólatra tem dificuldade em encontrar opções de tratamento. Os centros de ajuda têm programas montados por homens e para os homens. Eles se preocupam com as questões que levam os homens para a bebida: perda de emprego, endividamento, traição, separação. As motivações femininas são outras, subjetivas. Elas se sentem sozinhas (independentemente de terem ou não alguém), desestimuladas, melancólicas, ansiosas ou entediadas. Bebem porque ficam mais leves e alegres com o efeito do álcool. A jornalista americana Giselle Glaser passou quatro anos investigando as causas do aumento do consumo de álcool entre as americanas. O resultado está no livro Her best kept secret (Seu segredo mais bem guardado), lançado em 2012. Ela dedica metade de seu livro às dificuldades que as mulheres enfrentam em ser atendidas nas redes dos Alcoólatras Anônimos e de programas públicos de auxílio nos Estados Unidos. “A maioria das mulheres não se sente apoiada nos centros de recuperação de drogados, porque eles não abordam os problemas que as afetam”, diz ela. “As mulheres têm motivações, organismos e cobranças diferentes.” No Brasil, as críticas são parecidas. Ana Cecília Marques, da Unifesp, diz que não há tratamentos concebidos para as necessidades psicológicas e práticas das mulheres. Seria importante, por exemplo, oferecer cuidadores para seus filhos enquanto elas se tratam. Tampouco há remédios ajustados para o organismo delas. “Precisamos de uma política integral para o tratamento feminino”, afirma.

Várias razões contribuíram para o aumento do consumo de álcool entre as mulheres. Ele resulta, antes de mais nada, das mudanças culturais que ocorreram no universo feminino. Sobretudo o fato de as mulheres saírem de casa para trabalhar e começarem a sofrer estresse profissional. Elas passaram a ter seu próprio dinheiro, maior liberdade de escolha e mais desafios – ao mesmo tempo que continuam a ser responsáveis por quase tudo dentro de casa. Separadamente, a maior parte dessas atribuições são conquistas. Juntas, funcionam como uma câmera de alta pressão. Nunca antes a mulher precisou de tanta ajuda para desligar e relaxar.

Aí entra a segunda razão para o aumento da bebedeira entre as mulheres: o uso do álcool como ansiolítico. “Ele é usado, sobretudo, para diminuir o estresse do dia a dia”, diz Giselle Glaser. “Essa é uma porta de entrada importante para o mundo do consumo abusivo.” Muitas mulheres usam a bebida para lidar com sintomas de depressão. O álcool é usado de forma combinada com drogas próprias para o tratamento da doença ou como alívio para crises entre as vítimas que não têm acompanhamento médico. Nas duas situações, é uma armadilha. No momento em que a bebida faz efeito, a sensação é de relaxamento. Mas, em poucas horas, o bem-estar dá lugar a irritabilidade, insônia e sintomas fortes de ansiedade, seguidos de melancolia. “Com o tempo, o álcool ajuda a piorar os casos de depressão”, diz o psiquiatra Jorge Jaber. “É muito comum também que o alcoólatra desenvolva depressão aguda.”

Outro fator que contribui para aumentar o risco de dependência nas mulheres é o hábito de beberem sozinhas. Historicamente, o preconceito manteve as mulheres longe de bares e do consumo em público – e incentivou o consumo exagerado e oculto dentro de casa. Diversos estudos mostram que ficar sozinha com o copo dificulta o controle. “O grupo funciona como uma forma de regulação. As mulheres que se habituam a beber sozinhas têm apenas sua própria consciência como moderador de quantidade”, diz o médico psiquiatra Arthur Guerra, presidente do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool. “E esse moderador é facilmente anestesiado pela própria bebida.” O depoimento das dependentes confirma o diagnóstico médico. “Na frente do meu marido, eu tomava uns dois traguinhos, à noite. Mas, enquanto ele estava no trabalho, bebia de 3 a 4 litros de pinga por dia”, diz a pedagoga gaúcha Luiza – o nome é falso –, hoje com 70 anos. “Eu me automedicava para evitar o tremor do corpo. Ele só descobriu que eu era alcoólatra uns dez anos depois.”

Embora as mulheres caminhem para beber tanto quanto os homens, elas não têm a genética adequada para esse tipo de abuso. O organismo feminino é mais suscetível aos efeitos nocivos da bebida. Por ter maior concentração de gordura corporal (que ajuda a absorver o álcool) e menor quantidade de água em circulação (que permite dissipá-lo), a concentração alcoólica no sangue da mulher costuma ser maior, ainda que ela tome a mesma dose de bebida que o homem. O corpo feminino possui uma quantidade menor de enzimas que metabolizam o álcool no estômago, a desidrogenase. Por isso a bebida segue para a corrente sanguínea sem ter sido totalmente digerida e dá mais trabalho para o fígado. Isso aumenta as chances de as mulheres desenvolverem doenças hepáticas em menos tempo de uso da bebida. A terceira diferença é a forma como o etanol afeta os liberadores dos hormônios femininos, os neuroesteroides. Esse desequilíbrio hormonal afeta o sistema nervoso central. Em cinco anos de consumo excessivo, elas tendem a apresentar sintomas como lapsos de memória, desequilíbrio motor, problemas hepáticos e depressão. Os homens demoram 15 anos para chegar ao mesmo desastre. Entre as grávidas não há medida segura para o consumo de álcool.

Nos últimos anos, o maior crescimento do uso de bebida entre as mulheres ocorreu nas classes sociais abastadas. O percentual de bebedoras regulares entre elas é de 63,6%, enquanto nas classes mais baixas não chega a 12%. Entre as mais ricas, o percentual de bebedoras pesadas é de 13,4%, enquanto nas classes C, D e E o percentual varia entre 2,6% e 5,4%, de acordo com a OMS. Por quê? Ainda não se sabe exatamente. Os estudiosos dizem que o ambiente em torno das mulheres de classe alta incentiva o consumo de bebida. Há mais tolerância e mais oportunidades. Até a gastronomia funciona como porta de entrada para o consumo de álcool. Entre as mulheres pobres, a exposição à bebida é menor, inclusive por motivos religiosos.

Na falta de políticas públicas, o apoio da família e de amigos é essencial – inclusive para reconhecer o problema. A comerciante paulista Ivete Maria da Silva, de 39 anos, largou a faculdade, perdeu bons empregos e a guarda do primeiro filho por causa da bebida. “Sofria pelas perdas e pela culpa, mas não conseguia parar”, diz ela. “Só larguei depois que meu companheiro me pegou pela mão e me levou para a Associação Antialcoólica de São Paulo. Íamos juntos. Estou há dois anos limpa e hoje sou voluntária lá.”
 

A única maneira segura de evitar a dependência é diminuir o consumo, em quantidade e frequência. Algumas decisões ajudam. Fazer psicoterapia, praticar esportes de quatro a cinco vezes por semana e se engajar em trabalhos voluntários (que façam a pessoa sentir-se importante para os outros) são atividades úteis para reduzir o consumo de bebida. Para entender quando é hora de acender a luz amarela e mudar de hábitos, a melhor receita é ser franca consigo mesma.

É preciso, antes de mais nada, reconhecer que o consumo está saindo do controle. A Organização Mundial da Saúde recomenda que mulheres não consumam mais de duas doses de álcool por dia. Uma garrafa pequena de cerveja, a long neck, e uma taça de vinho têm uma dose cada. Um copo pequeno, com um único trago de pinga ou vodca, também equivale a uma dose. Essas são orientações gerais, mas a análise recomendada pelos médicos como a mais segura é individual. “Não estipulamos quantidade para reconhecer um quadro de dependência. O marcador é o efeito do álcool em cada consumidor”, diz Ana Cecília. “Se duas doses de vinho deixarem a pessoa embriagada, aquela não é uma quantidade moderada para ela, embora possa ser para muitos outros.”

Observar, reconhecer e respeitar os limites do próprio corpo são medidas importantes para manter o álcool como fonte de prazer, não de doença. Se há algo que as mulheres podem aprender com os homens é que o álcool destrói.

 

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