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DEPENDÊNCIA EM ANALGÉSICOS À BASE DE ÓPIO EXPLODE NOS EUA



Marcelo Ninio, da Folha de São Paulo, maio de 2016


A morte do músico Prince chocou os fãs e expôs uma epidemia silenciosa que assola os Estados Unidos: a explosão nos casos de dependência e overdose por analgésicos com opiáceos nos últimos 20 anos. O problema é tão grave que já afeta a expectativa de vida de parte da população, principalmente entre pessoas de meia idade.


Embora as investigações continuem, as evidências indicam que Prince, aos 57 anos, foi mais uma vítima dessa epidemia, que mata 78 pessoas por dia nos EUA.
Amigos do músico confirmaram que ele começou a tomar os analgésicos anos atrás, para aliviar dores causadas por uma longa carreira de shows usando salto alto. Depois de uma cirurgia nos quadris em 2000, o uso teria aumentado, tornando Prince dependente dos analgésicos opiáceos, conhecidos nos EUA como “painkillers”.


É um caminho semelhante ao traçado pela maioria dos dependentes, que começam a tomar os analgésicos após cirurgias e em pouco tempo se tornam viciados. A corretora imobiliária Betty Tully, 67, passou por isso. Em 2001 ela começou a tomar 10 mg diárias do analgésico oxicodona, depois de sofrer duas cirurgias na coluna. Em seis meses a dose era de 280 mg e ela estava viciada.
“Virei um zumbi”, contou à Folha. “Na prática, meu médico me receitou uma versão de heroína, mesmo depois de eu ter dito que não queria nada que pudesse levar à dependência, porque tenho um histórico familiar de alcoolismo e drogas. Mas ele disse para eu não me preocupar, porque essa era uma droga nova e maravilhosa.”


Hoje ela é militante de campanhas para tornar mais rigoroso o controle dos analgésicos opiáceos. Para ela, vários fatores explicam a explosão de casos de overdose nos EUA por opiáceos: a promoção agressiva que os laboratórios fazem dos analgésicos somada à prescrição exagerada dos médicos e ao excesso de leniência do governo.


Andrew Kolodny, diretor-executivo do grupo Médicos pela Prescrição Responsável de Opiáceos, diz que a epidemia começou em 1996, quando o laboratório americano Purdue colocou no mercado o analgésico Oxycodon.
“Investiram milhões de dólares para convencer a comunidade médica que nós havíamos permitido por tempo demais que os pacientes sofressem sem necessidade, e que o risco de dependência havia sido exagerado”, diz.
O resultado foi devastador. O número de mortes por overdose quadruplicou, totalizando 250 mil entre 1999 e 2014, a maioria por medicamentos sob prescrição médica. Hoje, é a principal causa de mortes “evitáveis” no país, superando os acidentes de trânsito. Segundo Kolodny, há hoje quase 10 milhões de dependentes nos EUA. Também levou a um aumento explosivo no consumo de heroína, usado pelos dependentes que não
conseguem obter as receitas para os analgésicos.


Segundo ele, muitos médicos receberam dinheiro para promover os opiáceos, mas uma grande parcela simplesmente “caiu na história” de que estava submetendo os pacientes a dor sem necessidade. “Em grande medida, essa epidemia foi causada pela comunidade médica”, diz.
A epidemia é principalmente americana. Embora tenham 5% da população mundial, os EUA são responsáveis por 80% do consumo mundial de analgésicos opiáceos.


À Folha, Anne Pritchett, vice-presidente de pesquisa da PhRMA, maior lobby das empresas farmacêuticas americanas, disse que a indústria está engajada com as autoridades americanas no esforço de conscientizar os médicos do perigo de receitar esses analgésicos em excesso.
“Nossa indústria leva muito a sério a prescrição apropriada”, disse Pritchett, que foi evasiva sobre a alegação de que a promoção agressiva dos opiáceos pelas empresas deflagrou a epidemia. Para ela, é importante também informar sobre o potencial de dependência e cuidar para que os pacientes não cheguem a outras pessoas. Segundo estatísticas oficiais, 60% dos dependentes obtêm os analgésicos com familiares e conhecidos.


Veterano da guerra do Iraque, Timothy Wynn, ficou viciado ao voltar do front. Preso várias vezes, recorria a qualquer fonte disponível. “Bastava ver alguém de muletas para perguntar se tinha analgésicos”, diz. “Virou um comércio, porque as pessoas sabem o valor que tem”.
No Brasil, o uso desse tipo de analgésico é baixo. Segundo Paulo Renato Fonseca, diretor científico da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor, o Brasil está entre os países com as menores taxas de prescrição de opioides.

 

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