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USO MEDICINAL DA MACONHA: VERDADE OU MITO?


Dr. Esdras Cabus Moreira
É psiquiatra. Graduado em medicina, mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Federal da Bahia e em Ciência da Saúde pela Universidade Johns Hopkins, Estados Unidos. Professor assistente de Psiquiatria da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e médico da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia.



A maconha é composta por mais de 400 substâncias, sendo que, pelo menos 66 delas são específicas dessa planta e chamadas canabinoides. O delta-9-tetra-hidrocanabinol, o THC, está mais presente e imagina-se ser ele responsável pela maioria dos efeitos psicoativos relacionados ao seu uso. Outros dois canabinoides muito presentes são o canabinol e o canabidiol (CBD). O canabinol tem ação maior em sistema imune e pode diminuir a intensidade dos efeitos subjeticvos do THC, embora os prolongue. O CBD responde a cerca de 40% dos canabinoides presentes na maconha e pode ter ação na redução da ansiedade, dos sintomas psicóticos (como ouvir vozes e delírios), na indução de sonolência e na proteção de crises convulsivas (EARLEYWINE, M. 2002, p.125).

 

No homem, os canabinoides da maconha se ligam a, pelo menos, dois tipos de receptores (locais das células nervosas, dos neurônios, aos quais as substâncias se ligam para gerar seus efeitos no corpo e no comportamento), os chamados CB1 e CB2, sendo o primeiro mais encontrado no cérebro. Como esses receptores estão presentes e são acionados por substâncias endógenas (produzidas pelo próprio corpo), bem como pelos canabinoides externos, todo o sistema é chamado sistema endocanabinoide e é responsável pelo controle da atividade cerebral independentemente da presença ou não das substâncias da maconha. Ou seja, naturalmente, o sistema endocanabinoide reduz ansiedade, agitação, atividade convulsiva, pressão arterial e náusea (KALANT, H. & PORATH-WALLER, A.J., 2011). Diante de tal fato, é possível, portanto, o entendimento da atividade terapêutica da maconha, já que sua ação ocorre nesses mesmos receptores.

 

A história do uso medicinal da maconha é longa. Provavelmente, começando em 2737 antes de Cristo, quando o imperador chinês, Shen Neng, introduziu seu uso para gota, malária, beribéri, reumatismo e dificuldade de memória (EARLEYWINE, M., 2002, p.10). Atualmente, seu uso medicinal é bastante discutido e, em países como Canadá e Estados Unidos, muitos pacientes já se beneficiam da maconha e dos seus derivados sintéticos. No Canadá, quatro formas de canabinoides são utilizadas: o Dronabinol (THC sintético comercializado em pílulas com o nome de Marinol); o Nabilone (derivado sintético do THC em pílulas comercializado com o nome de Cesamet); o Canabidiol (utilizado em partes iguais com o THC na forma com o nome comercial de Sativex) e o THC derivado da planta (o componente psicoativo primário) (KALANT, H. & PORATH-WALLER, A.J. 2012). Nos Estados Unidos, desde 1996, cresceu o número de estados que modificaram suas legislações, permitindo o uso medicinal da maconha. Atualmente são catorze (LEUNG, L., 2011).

 

Os estudos mostram boa evidência de eficácia da maconha fumada para dor neuropática induzida pelo HIV e uma evidência menor para a síndrome de Gilles de La Tourette, glaucoma e dor causada por inflamações. O extrato oral da maconha (pílulas) apresenta evidência de alívio dos sintomas de espasticidade causados pela esclerose múltipla (Sativex) e o uso do extrato na oromucosa (na forma de spray) mostrou-se eficaz para dores neuropáticas periféricas e centrais, principalmente as causadas pela esclerose múltipla (2011).

 

Embora a maconha possa realmente reduzir a pressão intraocular, não é um tratamento perfeito porque seu efeito dura em torno de 3 a 4 horas, forçando o paciente a fazer uso várias vezes, dificultando a adesão a um tratamento que dura inúmeros anos. Convulsões causadas pela epilepsia podem diminuir em resposta a canabinoides, principalmente ao CBD. Em relação aos movimentos involuntários, na distonia (contrações involuntárias dos músculos) há achados preliminares de melhora, principalmente com a utilização do CBD, o mesmo não ocorrendo para os sintomas motores da doença de Parkinson (EARLEYWINE, M. 2002, p.190). Em relação a sintomas mentais, o CBD parece reduzir quadros de ansiedade. Contudo, doses muito baixas ou muito altas, não teriam efeito. Do mesmo modo, o CBD parece ser eficaz em pacientes com quadro de psicose, reduzindo sintomas agudos em duas a quatro semanas (ZUARDI, A.W. et al., 2006).

Em 2000, o Instituto de Medicina dos Estados Unidos, em uma análise sobre os aspectos medicinais da maconha, concluiu a favor de um valor terapêutico modesto da maconha nas áreas de analgesia, náusea e vômitos, caquexia e estimulação do apetite, transtornos neurológicos e glaucoma. Não é possível afirmar e nem refutar a ideia de que o uso medicinal da maconha poderia levar ao abuso dessa substância. Embora para cada um dos sintomas e condições médicas analisadas existam terapêuticas melhores, não se pode desconsiderar a resposta de cada indivíduo, existindo um grupo para cada situação que se beneficiaria muito desses efeitos terapêuticos (WATSON, S.J. et al, 2000).
No Brasil, o Prof. Elisaldo Carlini da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, organizou em 2010 um seminário em São Paulo para discutir os efeitos terapêuticos da maconha e a criação de uma agência brasileira reguladora da maconha medicinal, porém sem desdobramentos, até o momento. Apesar dos avanços no entendimento do valor terapêutico da maconha e do seu uso para esse fim, em países como a Inglaterra, Holanda, Canadá e Estados Unidos, o Brasil ainda é refém do conservadorismo em relação às substâncias psicoativas. Décadas de políticas proibicionistas alimentam a demonização das drogas tornadas ilícitas pelas convenções internacionais e a violência ligada ao tráfico dessas substâncias. Como resultados, milhares de pessoas que poderiam se beneficiar do efeito medicinal da maconha continuam não tendo acesso a tratamentos eficazes por ignorância e preconceito.

 

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